
Desde pequeno eu ouço esta expressão: vou dar uma parada e “Recarregar as baterias”. Queria somente dizer que o indivíduo estava muito cansado e precisava sair da rotina estafante e recuperar suas energias com um bom descanso. Mas a vida é um processo incessante de mudanças, principalmente no mundo moderno. E eis que nos deparamos com a mudança de conceito da expressão. Recarregar as baterias nos dias de hoje passou a ser, antes de um momento de descanso, uma preocupação estressante com nossos aparelhos eletrônicos (e de nossos filhos, parentes, amigos). Um descuido e ... pronto: estamos sem celular, sem notebook, sem barbeador, sem furadeiras, parafusadeiras, calculadoras e outras “tralhas” mais. Isto sem falar na bateria do automóvel, seja ele com motor convencional ou, principalmente, os elétricos. E você já se imaginou sem estes itens “indispensáveis”?
Esta neurose toda com as baterias nos leva a estar em permanente vigília atento a controles, sinais luminosos, ponteiros. E com os olhos em busca de um carregador e de uma tomada, seja em qualquer lugar que estivermos. E também a verificação, repetida milhares de vezes ao dia, do nível de bateria de nossos aparelhos. Um “risquinho” a menos e já estamos preocupados se o restante da bateria será o suficiente para nossas necessidades. Isto sem falar em coisa mais séria ainda, como aparelhos médicos que garantem a sobrevivência de pessoas, como o marcapasso.
Mas, como tudo no ser humano, a bateria pode ser também um álibi. Muitas pessoas quando não querem atender uma ligação e são interpeladas depois, usam como desculpa o fato de seu celular estar com a bateria descarregada. Ou os filhos, quando não querem prolongar uma conversa nos dizem: “Tá bom, ta bom, mas agora vou desligar pois a bateria está acabando....”. Ou mesmo aquela outra desculpa: “Deixei o celular carregando e não vi tua ligação.”. O ser humano sempre dá um “jeitinho” de se adaptar às novas tecnologias!
Para os notebooks é a mesma coisa: desculpas e mais desculpas. Afora as neuroses com a bateria. Num telefonema eu já ouvi: “Puxa, desculpe-me mas não poderei te atender agora pois a bateria do meu note acabou e eu preciso recarregar. Assim que estiver pronta eu te ligo e resolvemos o problema”. Pode? E é claro que nestes casos acontece mais um “milagre da multiplicação”: a carga que duraria umas duas horas no máximo pode chegar a durar dias e dias, conforme a vontade da outra pessoa em resolver o problema.
Também não podemos esquecer que as baterias trazem outro momento de stress: o momento de se desfazer delas! Não basta apenas colocar no lixo, pois isto seria um desastre ecológico. Então lá vamos nós em busca de um lugar que colete as baterias usadas, que nem sempre está perto. Muitas vezes estas baterias ficam “morando” em nossas gavetas por um longo tempo.
Pois mais uma vez estou aqui a divagar sobre as tecnologias e as mudanças de comportamento que trazem. E as oportunidades que criam. Certamente você já passou por alguma das situações acima e também teria muitas outras a relatar. A verdade é que nos tornamos cada vez mais dependentes de aparelhos eletrônicos e suas baterias. Por isso é que muita gente anda sonhando em viajar para algum lugar remoto e ficar dias e dias, sem seus aparelhos, sem fazer nada, apenas descansando. Sabe para quê? Para “recarregar as baterias”!
(Coluna para o Jornal A Tribuna - SAP - 11/09/2009)