domingo, 8 de setembro de 2024

Melindre ou agressividade?

 Melindre tem várias definições. Pode ser definido como amabilidade, delicadeza no trato, recato, pudor.

No entanto, é quase certo que ao ser utilizado pelas pessoas, o conceito que expressa é de facilidade de se magoar, de se ofender, suscetibilidade.

Nesse sentido, tem sido comum a sua invocação, nas relações humanas. As menores atitudes de um funcionário, de um amigo recebem a adjetivação imediata.

Por isso, amizades se diluem, desentendimentos acontecem, duplicando mágoas de um e de outro lado.

Nas várias facetas do trabalho voluntário, melindre tem sido utilizado para justificar defecções, traições, desajustes e quebra moral de contratos de voluntariado.

Que ele existe, é verdade. Mas que as pessoas se dão, por vezes, um valor maior do que verdadeiramente possuem e aguardam tratamento especial, também é verdade.

No entanto, um outro lado da questão se apresenta e tem sido esquecido, quase sempre.

Se melindre é a manifestação do orgulho ferido, não menos verdade que medra, entre as criaturas, muita falta de tato, delicadeza e gentileza.

Em nome de uma falsa caridade, de expressar a verdade, amigos e companheiros de trabalho se permitem lançar ao rosto do outro tudo que pensam.

E não medem palavras nas suas expressões. É como se tomassem de pedras e as jogassem, sem piedade.

E o que esperam é que o outro aceite tudo. Quando o agredido se insurge, quando toma uma atitude, quando fala de respeito, é tomado como aquele que se melindra.

Contudo, em nenhum momento o agressor, aquele que foi indelicado e feroz, se desculpa. Não, ele está certo. O outro é que é portador de muito orgulho.

Nesse diapasão, vidas honradas de trabalho têm sido literalmente jogadas no lixo. Servidores de anos têm tido seus esforços depreciados, como se fossem coisa alguma.

E o que critica maldosamente, o que aponta os erros mínimos é o herói, a pessoa correta.

Refaçamos os passos enquanto é tempo. Antes de destruirmos valores afetivos preciosos. Antes de atacarmos instituições centenárias com folha irrepreensível de dedicação e serviço à comunidade.

Examinemos quantas vezes a culpa nos compete. Quantas vezes teremos sido nós os provocadores do afastamento de pessoas de nosso convívio.

Ou da instituição a que prestamos serviço. Da nossa família, da nossa esfera de amizades.

Recordamos que, certa vez, em reunião de trabalho, um voluntário interrompeu de forma agressiva a fala do coordenador.

Reclamou e reclamou, ferindo e humilhando-o frente aos demais.

O ferido se calou, dolorido. Depois de alguns dias, procurou o agressor em particular. A sós com ele, expressou a sua mágoa, com o sincero objetivo de modificar a emoção ferida e apaziguar seu mundo íntimo.

O interlocutor, em vez de reconhecer a indelicadeza, reverteu a situação e deu o diagnóstico impiedoso: não houvera agressão de sua parte. O outro é que se melindrara.

Pensemos nisso. Será que a constatação quase diária de melindre nos outros não se tornou uma válvula de escape para nós?

Uma desculpa para a nossa rispidez cotidiana, o nosso relaxamento no trato com o semelhante?

* * *

Quem se melindra, deve trabalhar para se tornar menos suscetível.

Mas quem provoca o melindre não pode se esquecer da lei de caridade, da afabilidade e da doçura preconizados por Jesus: Bem-aventurados os mansos e pacíficos.

Redação do Momento Espírita com base em fato narrado no artigo O problema do melindre, de André Marcílio Carvalho de Azevedo, da Revista Presença Espírita nº 261, ed. Leal. (Veja abaixo)

O   PROBLEMA   DO   MELINDRE: uma praga “dos outros” ou desculpa para a nossa    indelicadeza?

André Marcílio Carvalho de Azevedo

“O melindre está imperando nas relações interpessoais dentro do movimento espírita”, é frase que se tem ouvido com relativa freqüência, nas diversas fileiras do Consolador, bem como mencionada em nossa literatura recente. De fato, como onda gigante, o melindre tem atingido proporções nunca vistas dentro de um movimento que deveria primar pela ênfase no serviço sem personalismo. Resultado da imaturidade psicológica, o melindre é o orgulho ferido daquele a quem qualquer desapontamento ou contrariedade desestrutura. O melindroso, quando não desiste do trabalho no Bem, abandonando a seara, faz “corpo mole” e passa a dar apenas uma percentagem da energia de trabalho que é capaz de investir, dizendo de si para consigo: “se não pode ser como eu quero, então não vou contribuir”.

O melindre medra em todos os setores do movimento, sem distinção de posto ou função, indiferente a idade, classe social ou especificidade da tarefa.

Aqui, é o dirigente de centro que não comparece a este ou aquele evento de sua jurisdição, por não ter sido contactado com a deferência devida; acolá, é o jovem evangelizador que abandona a tarefa, ressentido, porque nenhuma sugestão sua fora acatada no planejamento do trabalho; mais além, é o sensitivo contrariado com a apreciação judiciosa das comunicações obtidas através de sua faculdade medianímica, que, magoado, passa a transitar de centro em centro, à procura daquele em que seja incensado de maneira mais generosa.

De fato, o melindre pode ser motivo de obsessões sutis, para a criatura incauta.

O que é encarado por nós como melindre, porém, pode constituir meramente a expressão de justa indignação do outro perante a nossa falta de gentileza. Neste sentido, a grande pergunta que cada um se deve fazer é: será possível distinguir o ponto exato em que começa o melindre do próximo e termina a minha arrogância? Em outras palavras, quanto da nossa falta de afabilidade tem contribuído para gerar o “melindre” do outro? Essa mudança de foco aparece como uma advertência, propositadamente fincada na contramão da verdadeira “caça às bruxas” contra o melindre, a que se tem assistido nos corredores do movimento espiritista.

Uma companheira de trabalho relatou-me a seguinte experiência, que pode ilustrar o problema.

Há alguns anos, um confrade seu interrompeu-lhe agressivamente a fala, durante uma reunião de planejamento de um grande evento espírita, por não se ter agradado de um vocábulo usado por ela, muito embora colocado sem má intenção. Sentindo-se ferida e humilhada, de maneira tão desproporcional, perante os companheiros presentes, a minha amiga calou-se, porém, e esperou alguns dias. Oportunamente, chamou o provável agressor em particular. A sós com ele, a minha amiga tentou expressar a sua mágoa, com o objetivo sincero de transmutar a emoção ferida, com vistas ao apaziguamento do seu mundo íntimo. O interlocutor, porém, em vez de reconhecer a própria indelicadeza, reverteu a situação, emitindo o diagnóstico fácil e impiedoso: a minha amiga é que se havia melindrado – não houve agressão por parte dele, que, dessa maneira, perdeu a oportunidade de resolver a questão de modo maduro, pela incapacidade de admitir o próprio erro.

Casos verídicos, como o relatado acima, têm-me feito perguntar: será que a constatação corriqueira do melindre no próximo não se tornou uma válvula de escape, uma desculpa para a nossa rispidez cotidiana, o nosso relaxamento no trato com o semelhante?

Joanna de Ângelis oportunamente adverte para os perigos do mecanismo de defesa do ego denominando de “racionalização”, em que o indivíduo procura justificar o erro “mediante aparentes motivos justos, que degeneram o senso crítico”1. No caso em pauta, o indivíduo desatento age com descortesia, justificando-se em pensamento: “se ele não gostar do que eu disse é porque é melindroso”. Segundo a Mentora, trata-se de um dos mecanismos de defesa do ego de maior gravidade, por encobrir o erro, adiando o processo de reforma íntima.

Não se está querendo dizer aqui que o melindre não exista como expressão de susceptibilidade exacerbada. A nossa análise traz apenas uma advertência para o fato de que muitas vezes a nossa aspereza de trato atinge o próximo de maneira tão cortante que não lhe deixamos alternativa, senão a magoa, e é preciso resistir ao comodismo de atribuir o problema somente ao companheiro de luta.

O ser que se melindra está dando vazão ao orgulho ferido, e deve trabalhar para se tornar menos suscetível, mas o ser que provoca o melindre pode estar ferindo a lei da caridade, esquecendo-se da afabilidade e da doçura da observação de Jesus:”Bem-aventurados os mansos e pacíficos”.2 Desta forma, cabe a cada um examinar ininterruptamente o próprio grau de docilidade, dentro e fora do movimento espírita.

Assim, antes de diagnosticar o melindre de outrem, impõem-se como imperativo ético verificar se o próprio comportamento e o do próximo foi agressivo, já que, como está dito acima, tal fronteira pode ser muito difusa. Parafraseando uma placa de advertência de trânsito, poderíamos dizer, com propriedade, neste caso: “na duvida, não ultrapasse.” 

Referências: 

1 – FRANCO, Divaldo [pelo Espírito Joanna Ângelis] O Ser    Consciente. Salvador, LEAL, 1993. 

2 – Veja-se o capitulo 9 de O Evangelho segundo o Espiritismo. (Publicado originalmente na revista Presença Espírita, julho/agosto - 2007

https://www.momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=1624&let=M&stat=0

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