"Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração..."
(O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry)
Eu ainda lembro de meu saudoso pai e seu hábito de zelar
pela pontualidade em seus compromissos pessoais. Lembro ainda, com mais clareza,
da sua cobrança sobre nós os filhos e sobre minha mãe. Estas atitudes ficaram
marcadas em mim e até hoje procuro chegar pelo menos dez minutos antes do
horário marcado. Se me atraso é por motivo alheio a minha vontade. Mas, para
quem vive no Brasil isto é quase uma heresia.
Em nosso país o horário marcado não é respeitado por uma boa
parcela da população e eu sempre me arrisco a dizer que horário no Brasil é
sugestão, não uma obrigação. E destas incontáveis situações de atraso e
desrespeito e desatenção com outras pessoas, há uma certa “evolução” para
outras situações (não sei se se pode aplicar o seu verdadeiro sentido aqui).
Faço a ressalva de que não abordarei situações da vida corporativa, dos
compromissos profissionais ou de outras instâncias de nossa vida social.
Deixemos apenas no campo dos compromissos pessoais.
É muito comum alguém que marcou um encontro, não aparecer
sem dar alguma justificativa ou avisar com antecedência. O outro espera, espera,
espera no local combinado e acaba por ficar ali com cara de bobo. A tecnologia
moderna dos smartphones permite mandar mensagens para o faltante, tentar ligar
para saber o que houve, o que atenua a descortesia do outro que geralmente tem
uma boa explicação, na maioria das vezes um engodo. Isto quando respondem ou
atendem.
A verdade é que as pessoas esquecem do compromisso, não
querem ir ou mesmo dão prioridade a outras agendas, ao seu ver, mais atrativas,
como um chá com uma amiga, uma cervejinha com um amigo acompanhada de um bom
churrasco. E isto, na maioria das vezes, deixa as pessoas chateadas, magoadas
até, principalmente quando é um encontro de pessoas que não se veem há muito
tempo e cria-se aquela expectativa de matar as saudades e o que acontece é uma
grande frustração. Se isso acontece repetidas vezes fica claro a
desconsideração e falta de apreço de quem não comparece apresentando os motivos
mais banais, ou mesmo nem justificando.
Nestes dias em que “vivemos
tempos líquidos, nada é para durar”, como diz Bauman, o interesse e a utilidade
das pessoas falam mais alto. O mundo evoluiu tecnologicamente, mas vivemos
tempos duros na questão dos sentimentos. Lê-se muito, informa-se muito na
internet, entretêm-se muito nas mídias, mas os laços sentimentais estão cada
vez mais tênues.
Talvez a atitude mais triste seja mesmo a falta de resposta.
Não bastasse o atraso, a ausência, ainda há a desconsideração de ignorar as
mensagens, e-mails, ligações. Isto acentua o desprezo pelo outro,
principalmente nestes dias de relacionamentos virtuais, e líquidos, onde o
teclado e a tela aceitam tudo, mas não substituem o carinho ao vivo.
Bem, alguém pode dizer que estou exagerando, que pode ser
apenas uma distração ou ocorrências de última hora. Então, uma desculpa
esfarrapada ou até a falta dela são apenas a terrível e sempre presente falta
de educação.
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