quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Se tu vens...


"Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieto e agitado: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração..."
(O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry)

Eu ainda lembro de meu saudoso pai e seu hábito de zelar pela pontualidade em seus compromissos pessoais. Lembro ainda, com mais clareza, da sua cobrança sobre nós os filhos e sobre minha mãe. Estas atitudes ficaram marcadas em mim e até hoje procuro chegar pelo menos dez minutos antes do horário marcado. Se me atraso é por motivo alheio a minha vontade. Mas, para quem vive no Brasil isto é quase uma heresia.

Em nosso país o horário marcado não é respeitado por uma boa parcela da população e eu sempre me arrisco a dizer que horário no Brasil é sugestão, não uma obrigação. E destas incontáveis situações de atraso e desrespeito e desatenção com outras pessoas, há uma certa “evolução” para outras situações (não sei se se pode aplicar o seu verdadeiro sentido aqui). Faço a ressalva de que não abordarei situações da vida corporativa, dos compromissos profissionais ou de outras instâncias de nossa vida social. Deixemos apenas no campo dos compromissos pessoais.

É muito comum alguém que marcou um encontro, não aparecer sem dar alguma justificativa ou avisar com antecedência. O outro espera, espera, espera no local combinado e acaba por ficar ali com cara de bobo. A tecnologia moderna dos smartphones permite mandar mensagens para o faltante, tentar ligar para saber o que houve, o que atenua a descortesia do outro que geralmente tem uma boa explicação, na maioria das vezes um engodo. Isto quando respondem ou atendem.

A verdade é que as pessoas esquecem do compromisso, não querem ir ou mesmo dão prioridade a outras agendas, ao seu ver, mais atrativas, como um chá com uma amiga, uma cervejinha com um amigo acompanhada de um bom churrasco. E isto, na maioria das vezes, deixa as pessoas chateadas, magoadas até, principalmente quando é um encontro de pessoas que não se veem há muito tempo e cria-se aquela expectativa de matar as saudades e o que acontece é uma grande frustração. Se isso acontece repetidas vezes fica claro a desconsideração e falta de apreço de quem não comparece apresentando os motivos mais banais, ou mesmo nem justificando.

Nestes dias em que  “vivemos tempos líquidos, nada é para durar”, como diz Bauman, o interesse e a utilidade das pessoas falam mais alto. O mundo evoluiu tecnologicamente, mas vivemos tempos duros na questão dos sentimentos. Lê-se muito, informa-se muito na internet, entretêm-se muito nas mídias, mas os laços sentimentais estão cada vez mais tênues.

Talvez a atitude mais triste seja mesmo a falta de resposta. Não bastasse o atraso, a ausência, ainda há a desconsideração de ignorar as mensagens, e-mails, ligações. Isto acentua o desprezo pelo outro, principalmente nestes dias de relacionamentos virtuais, e líquidos, onde o teclado e a tela aceitam tudo, mas não substituem o carinho ao vivo.

Bem, alguém pode dizer que estou exagerando, que pode ser apenas uma distração ou ocorrências de última hora. Então, uma desculpa esfarrapada ou até a falta dela são apenas a terrível e sempre presente falta de educação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário