sexta-feira, 5 de junho de 2015

Existe mesmo a tal liberdade de imprensa?

‎"Pessoas normais falam sobre coisas, pessoas inteligentes 
falam sobre idéias,pessoas mesquinhas falam sobre pessoas." 
Platão

Temos vivido nos últimos tempos uma verdadeira revolução na comunicação. Falo das famosas, às vezes contestadas, muitas vezes polêmicas, mas, nos dias de hoje, indispensáveis “Redes Sociais e Blogs”. Fizeram com que muitas pessoas, e até empresas e entidades, pudessem ter seu espaço de expressão, raros na grande imprensa. Claro que há exageros de toda índole, mas as Redes Sociais e Blogs  hoje são muito importantes na informação e na contrainformação. E na “contra-contrainformação” e assim por diante. Tudo depende da fonte, verdadeira ou não, e da vontade do “freguês” em aceitar ou não o que se publica, claro que dentro de suas concepções e valores.

Mas talvez a melhor contribuição que as redes e blogs têm trazido aos seus participantes é uma visão cada vez mais crítica das informações que circulam mundo afora. E de onde saem estas informações, especialmente os veículos de comunicação como jornais, revistas, rádios , TVs e ainda sites e blogs.  Diante de tamanho volume de informações falsas e/ou publicadas parcialmente visando atender a interesses diversos (inclusive políticos e econômicos), a própria comunidade virtual tratou de criar mecanismos onde se verificam a veracidade ou não de tal notícia. Por exemplo o site www.boatos.org. Também em atitude similar e anterior sites como o www.observatóriodaimprensa.com.br  já vinham fazendo, e ainda fazem, a crítica do que se publica na imprensa brasileira.

E daí vem a minha indagação neste momento: existe mesmo a tal liberdade de imprensa? Por favor não me interpretem mal os afoitos, nem os profissionais da imprensa, dos quais incluo muitos amigos meus. Não é uma crítica aos jornalistas ou a outros profissionais, mas instigar a uma reflexão mais profunda sobre como se manifesta a opinião e de como se passa a informação em nossos veículos de comunicação.

Vejam por exemplo estas notícias que circulam sobre o escândalo FIFA, onde notícias nas redes trazem a informação de que a Rede Globo tem privilégios na transmissão de mega eventos e campeonatos. Quem vai contestar isto? Onde estão os principais fóruns de debates sobre isto? Somente em um “lugar”, virtual é claro: nas Redes Sociais e em alguns blogs de jornalistas e pessoas interessadas. É claro que as grandes redes de comunicação, envolvidas com poderes econômicos e políticos, fonte de grande faturamento para estas, não vão permitir que seus empregados, os jornalistas e toda gama de profissionais que produzem suas publicações, possam assumir e veicular fatos que sejam contra si e seus parceiros da primeira hora. É o que temos visto nas últimas décadas no Brasil, com a participação ativa de grandes corporações de mídia como Globo, Editora Abril e Grupo Folha de São Paulo, por exemplo, nas atividades de cunho político, participando ativamente nas campanhas presidenciais (golpes), tentando eleger candidatos de sua preferência, certamente de olho em futuros ganhos.

Não são poucos os profissionais que deixam as fileiras das grandes corporações  e partem para projetos próprios, ou veículos menores, em nome de sua coerência pessoal e profissional. Recentemente a jornalista Mariana Godoy deixou a Globo News e ao assinar contrato com a Rede TV, disparou contra seus antigos patrões dizendo que agora pode fazer as perguntas que tenha vontade, pois antes tudo era controlado e programado por instâncias superiores da emissora. Nem mesmo o longevo e já combalido Jornal Nacional tem carta branca para operar.  E nem vamos citar os profissionais que trabalham na maior rede de comunicação local, onde, têm que ser a voz do patrão.  Alguns até demonstram constrangimento, mas outros até o fazem de maneira natural. Mas diante dos cortes de pessoal e enxugamento da máquina na sua empresa, quem colocaria sua “boquinha” em risco? Mas ao primeiro sinal de que algo externo que conteste esta situação e possa interferir em suas opiniões e posições da empresa, logo vêm os discursos a favor da liberdade de imprensa, do livre exercício da profissão e outras coisas mais.

Então, sem nada de novo no “front”, continuaremos assim, consumindo informação de péssima qualidade e de origem duvidosa. Este processo pernicioso acaba com o lado mais importante que a boa e correta informação pode trazer para nossa sociedade: a formação de uma massa crítica realmente interessada em resolver as coisas que são do bem comum. Um cidadão com sua visão crítica correta e não distorcida dos fatos, pode, e deve, influenciar nos destinos de sua sociedade, seja através do voto, seja através da participação nas instâncias sociais de decisão. E quando falo em visão crítica correta falo do cidadão ter posição, mesmo que seja antagônica a outros, mas com a capacidade de debater de maneira racional e cortês com outros interlocutores. Deste debate civilizado e embasado em argumentos e não agressões, certamente nascem soluções melhores para todos, e não só para pequenos grupos. (E certamente melhoraria a qualidade de nossos políticos)

As Redes Sociais têm nos ensinado sobre o que é,  e o que não é, o bom debate. Agressões gratuitas e descabidas, raciocínios torpes e padronizados, rotulações, preconceitos e, principalmente o ódio a quem não pensa igual, não contribuem em nada para o desenvolvimento da sociedade e de seus cidadãos. Só servem para manter, e até atrasar, a sociedade. Já o debate em alto nível, que procura o senso e o bem comum, mesmo com diferenças ideológicas e teóricas, é o melhor caminho para conseguirmos evoluir como nação, conseguindo o comprometimento de todos nas coisas que são comuns e que certamente são melhores para todos.

Comprometidos com o poder econômico e político, os grandes conglomerados de comunicação não têm cumprido seu papel de auxiliar a sociedade a evoluir e têm, nos últimos anos, perdido espaço para as Redes e Blogs, justamente por causa da qualidade da informação. Estes proporcionam aos internautas, fóruns produtivos de debates e soluções. Redes e blogs estão, e que siga assim, fazendo a real revolução na comunicação, que pode ser o caminho para a verdadeira liberdade de imprensa, que só existe com cidadãos conscientes e com visão crítica do mundo onde vivem.

Vale a pena ler o artigo O começo do fim da era da primeira página