Não há dúvida de que a internet revolucionou o mundo
disponibilizando conhecimento, bom e ruim, para todo o planeta. Qual destes
conteúdos acessar e valorizar depende de cada um. É o livre arbítrio, também
presente em nossas atividades virtuais, pois em todos os momentos de nossa
vida, em cada ato ou decisão sempre levamos em conta aquilo que para nós é mais
racional, ou mais importante. Naquele momento.
Também é indubitável que as redes sociais aproximaram
pessoas. Amigos e parentes que não se viam ou falavam há muito tempo, têm a
oportunidade de relembrar os velhos tempos, falar de suas vidas atuais e retomar um relacionamento que se achava
perdido nos caminhos de cada um. E muito mais do que isto, num gigantesco ato
de amizade e de amor, marcam encontros e reveem amigos e parentes e a saudade é
esvaída em um longo e carinhoso abraço.
Recentemente, um grupo de ex-colegas de banco, reuniu-se com grande alegria depois de mais de 40 anos. Participei com o coração pleno de felicidade, pois foi um ato muito além dos tempos atuais, onde as pessoas se relacionam à distância através do telefone, e-mails ou redes sociais. Parabéns amigos e amigas, de Teresópolis. Vocês foram gigantes que venceram as barreiras do virtual para viver um momento real de carinho e amizade. E o melhor: convidaram-me para fazer parte deste momento único. Jamais esquecerei isto.
Porém, é preciso falar de outro lado das redes sociais. Não
aquele perverso que espalha mentiras, corrói reputações e se faz instrumento do
“bulling” e até da alienação parental. Falo da faceta que mantém a distância
entre pessoas, que justificam o afastamento em mensagens curtas e objetivas de
preocupação ou um simples “oi”. Afinal, se eu me comunico com você, logo,
nossas relações (e meus deveres enquanto amigo, filho/filha, pai/mãe) estão
mantidas, ainda que não nos tenhamos vistos nos últimos meses, anos e quem sabe
até décadas. É a isto que me refiro: às redes sociais como instrumentos do
afastamento tácito, mas maquiado por mensagens escritas, figurinhas de coração,
de carinhas com sorriso ou mostrando contrariedade; imagens de mãos em oração,
mas o coração... longe, longe...
Há também a utilidade de preencher a ausência com palavras
racionais tipo: ”estou muito ocupado, não vai dar tempo de passar aí...”;
“surgiu um imprevisto”; “bah, dormi demais e perdi a hora”; “meus amigos me
chamaram para um churrasco”; “Eu posso te ver,mas tens que vir aqui...”, “este
Natal vou passar com meu namorado(a)”, e tantas outras mais que só os corações
que realmente amam aceitam como desculpas razoáveis. Basta um lampejo de
consideração, uma possibilidade da proximidade e os sentimentos revivem,
ingentes, sinceros e esperançosos, para logo após, diante da desconsideração e
afastamento, estiolarem-se pouco a pouco.
Acontece que em certo momento as pessoas cansam disto. E aí
vem um dos piores resultados que as redes sociais podem proporcionar: o
afastamento emocional das pessoas. A triste constatação de que os sentimentos e
considerações de um lado, inexistem do outro. A importância de cada um na vida
do outro não é a mesma. São amigos que já não se veem, mas mantém a amizade
virtual. Filhos que não mais se importam com mães e pais, netos que não
percebem o amor de seus avós, mas mantém as aparências com mensagens pífias de
amor e preocupação: “ Você está bem? Eu também”; “Te cuida”; “Assim que der
passo aí, ando muito ocupada”; “Pensei em ti hoje...”; “Como não sabia? Lembra...te
falei no ano passado...”.
Estas mensagens “protocolares” vão desgastando
relacionamentos, abalando a confiança na sinceridade das palavras, que passam a
ser cada vez mais vazias, longe de seus significados reais. É a perpetuação da
distância e da quase inexistência de sentimentos, que passam a fazer parte das
memórias do coração e não mais da vida cotidiana. Triste fim para as pessoas e
relacionamentos que aos poucos vão demonstrando o que de fato são.
Já se constata um fato curioso: há tempos atrás, era comum
que amigos e parentes, por razões que a vida apresenta, seguissem cada um seu caminho,
encontrando-se eventualmente ou mesmo não se vendo por anos, décadas. Já
envelhecidos, os encontros vinham a acontecer nos enterros de amigos comuns ou
parentes. Hoje já acontece de jovens que relacionam-se com pessoas próximas
apenas por redes sociais, encontrarem seus entes mais próximos como pais, irmãos,
parentes e amigos em enterros de entes comuns. Uma situação que causa
perplexidade.
As mesmas redes sociais que aproximaram, agora são o
instrumento para manter afastadas pessoas, consideradas inúteis, inconvenientes
e dispensáveis. Nós humanos temos a grande capacidade de inventar, e de
reinventar coisas boas e úteis para todos; usá-las para o desenvolvimento e
progresso da humanidade, mas também temos um grande talento de torná-las a base
de situações desprezíveis.
Pensemos: precisamos e devemos valorizar os relacionamentos
pessoais de fato, presenciais, aqueles do “olho no olho”, sentimento a
sentimento. Os relacionamentos que
realmente envolvam pessoas que se consideram, que se amam, que têm laços
profundos, sejam de amizade ou parentais. Há as diferenças, sim, há. Mas
certamente são superadas pelo carinho e o amor recíproco, que antes de tudo
respeita a individualidade de cada um.
Precisamos também aprendermos a ouvir. Se não escutarmos um
ao outro não poderá haver respeito ou entendimento. Como compreender se não
escutarmos o outro? Certamente apenas com mensagens virtuais é que isto não vai
acontecer.
Não devemos demonizar as redes sociais, pois se há mau uso,
é de quem as utiliza. Entretanto, é preciso avaliar melhor seu papel nas
relações humanas. Instrumento de comunicação? Sim. Mas só elas não bastam. É
preciso também a presença como resultado desta comunicação.
Diz uma música, citada por mim em outro texto, que “o melhor
lugar do mundo é dentro de um abraço”. Verdade indiscutível. Um abraço só é bom
por que possibilita a proximidade de dois corações, não aqueles ícones do smartphone,
mas aqueles que batem verdadeiramente nos peitos dos que abraçam.
Eu acrescentaria outra, que trago comigo faz muitos
anos: “Nada substitui um abraço!”.
Pensemos!

